Hoje faz cinco meses que nos mudamos para Salvador. Passei esse período praticamente em silêncio. Foram poucas as palavras trocadas com outras pessoas. Na maioria das vezes um pedido de informação ou alguma compra. Tive apenas UMA conversa de mais de cinco minutos com outra pessoa que não fosse o Lucas. Terminei de escrever um livro e comecei outros tantos. Voltei a ler. Engolida, não lia há dois anos.
Seria essa então a parte prática? Não. É a parte prática uma coisa que fugi quando disse adeus á minha terapeuta. "Não tenho condições de olhar para mim nesse momento. Então paro a terapia por aqui". Dito isso, fui trabalhar e a noite, como de costume, me fechei numa roda imensa de amigos e cervejas. Pessoas, risos, telefonemas e outras coisas que se repetiam sempre. Tive uma vida social movimentada e junkie. Tenho mais amigos que uma pessoa normal pode ter. Sempre estranhei o fato de ser extremamente popular. Todos queriam sentar-se na minha mesa. Sentavam-se. O problema é que eu sempre fui amiga dos meus amigos, mas sempre tomei chuva sozinha.
Nunca fui boa de escolha e hoje vejo que são cinco ou - no máximo seis - aqueles que dariam voadoras por mim. O que eu fiz? Mandei e-mails duros, não mais liguei, não respondi a cartas, telefonemas ou sinais de fumaça. Deletei do meu Orkut e do meu MSN pessoas indesejáveis. Na maioria das vezes, o dito-cujo foi avisado. Alguns ainda tentaram argumentar, mas BAH! parece aquela coisa de namorada adolescente chata e obcecada.
O que vou fazer sem você?
Seja promíscua - responde Chuck Norris.O ser humano é essencialmente egoísta. Está sempre olhando para aquele queijinho branco que se acumula em seu umbiguinho sujo. Enquanto o amigo está se descabelando com um problema sério, lá está ele, enfiando o dedo indicador o mais fundo possível na meleca. No meio de sua dor mais intensa, tudo o que o cara vê é um dedo sujo indo em direção ao nariz do suposto ouvinte que delira em silêncio com aquele cheiro. São poucas as pessoas que conseguem parar e entender o outro. Ignorar sua sujeira para fazer parte do entendimento do movimento interno de outra pessoa é um dom.
Quando saí da sala da minha terapeuta, deixei muita coisa para trás. Assumi para mim que era covarde e que fingia ser bacana e cool cercada de gente para garantir que as minhas dores fossem delicadamente ignoradas diante de cada sujeira. Respirei fundo e decidi ver qual era a minha. Resolvi sair de todo furdunço que vivia. Fui para Três Lagoas e deixei família e amigos saudosos. Eles que se fodam, eu quero a verdade.
Limitei meu convívio social o máximo possível. Havia um ou outro intruso que devido à minha dificuldade de impor limites continuava freqüentando minha casa. Havia gente que me queria em rodinhas e eu nunca tive coragem de dizer que uma das poucas coisas que me alegravam a sair de mim era a Casa de Dona Eleuza e Seu Leopoldo. Eram pessoas sem sujeira no umbigo. O resto, na maioria das vezes, eram pessoas interessadas em discutir sobre isso ou sobre aquilo. Que me interessa Virginia Woolf? Que me interessa Elis ou essa ou outra cantora? Se o Lucas precisasse conviver com pessoas ele que tivesse esse momento. O meu era outro. Minha única preocupação era que ele não andasse com determinadas estirpes. Nunca soube reagir à escrotidão com outra coisa que não fosse raiva e desprezo.
Em Salvador cheguei exatamente onde precisava. No silêncio. Descobri-me ainda mais sensata que o normal e pude treinar meu desapego ás coisas e às pessoas. De que me serve alguém que é - num primeiro momento - extremamente incapaz de fazer um comentário saudável? Para que manter pessoas que jamais se importaram comigo em Três Lagoas mas que agora faziam fila para me ver em Salvador?
Dessas andanças fui descobrindo gente antiga com sabor de nova. Gente de Campo Grande e SP que não vejo há tempos, mas que entenderiam exatamente esses sentimentos. E, acima de tudo, não fariam comentários torpes sobre minha decisão de me ausentar do convívio social ou de me abster de uma profissão que é uma máquina de moer carne. Ouvi muitas coisas nesse período. Legais ou toscas vindas de gente de todo tipo. Não consegui eliminar o ego, mas consegui eliminar o mal estar entre eles. Isso é um grande avanço. Consegui tirar gente que podia ATÉ me trazer alguma alegria, mas que na avaliação custo benefício não funcionava.
Não preciso de gente dizendo que é burrice largar a redação, que viver de literatura é um erro, que devo me aprofundar no que escrevo, que seria capaz de enjoar de mim mesma ou que sou extremamente conservadora. Fodam-se as pessoas. Na maioria das vezes, enquanto tento argumentar minhas coisas, lá estão elas, com seus umbigos sujos. Indignos? Não sei. Não me interessa a vida que levam. Como levam ou quais são os tapas que lhe doem. O que elas me dizem hoje já escutei antes de outras pessoas que hoje dizem coisas contrárias. Se há alguma vantagem no ser humano é o direito de se contradizer. O resto é bullshit.
No mais, a vida continua calmamente. Os trabalhos vão bem obrigado. Há possibilidade de mudanças. Continuo escrevendo e pensando em livros com fúria. O casamento continua lindo. E se o blog tá fraco, é porque a pessoa aqui tem uma vida off line. Tem que trabalhar, cuidar da casa, trepar, fazer cafuné no marido, escrever, assar lasanha e cuidar do primeiro filho que está completando três meses na minha barriga. Se tem uma coisa que fiz bem foi limpar muito bem minha vida. Só tenho cousas boas para meu filho. A melhor delas é uma mãe íntegra e de umbigo limpo.